SEGURANÇA - Reflexão

Este texto tem o intuito de provocar uma sensibilização e consciência no seio dos amantes desta modalidade, frequentadores de zonas que por um ou outro motivo nos poderão colocar a integridade física em risco.

A procura de condições favoráveis à pratica da pesca costeira, e consequentes capturas é por vezes meio caminho para um risco desnecessário.
Contudo uma boa analise das condições atmosféricas, do estado do mar e dos possíveis riscos ou factores de risco é essencial para evitarmos colocar em risco a nossa integridade física.

Todos os anos ocorrem acidentes no mar, que infelizmente em alguns casos até se verificam perdas de vidas humanas, na maioria dos casos por quedas, descuidos, não observarmos o mar correctamente e ele nos surpreender, etc.


MAR E ONDULAÇÃO:

Nos últimos anos com a crescente adesão à pesca lúdica que grande parte das massas humanas que o por paixão, divertimento, companhia, escape ao stress do dia-a-dia convívio, contacto com a natureza, temos notado, principalmente nos meses de Inverno, um crescente aumento de perdas de vidas humanas, sobretudo devido as quedas, aproximações das linhas de água, isto é, locais onde o mar pode chegar com extrema facilidade, os chamados enchidos ou ondas de energia, pela formação e força das mesmas, dificilmente as podemos prever, uma vez que aparecem quase do nada e se formam bem próximo da costa ou em locais com pouca profundidade.

Quando o mar se encontra falso, geralmente no período Outono/Inverno, se tivermos o cuidado de observarmos o mar durante 15 a 20 minutos conseguimos rapidamente avaliar o seu grau de estabilidade, observando os “setes” (nome dado à cadencia das ondas formadas por grupos de 7, seguídas de uma curta paragem, algum cuidado especial deveremos ter pois estes “setes” podem ser compostos por mais ou menos ondas que o 7, dependendo muito do estado do mar, mas normalmente são compostas por 7), é fácil observarmos esse factor, quase ao primeiro olhar, basta que num mar com alguma acalmia observemos linhas paralelas à linha de costa ou a pedras ilhadas, se essa linha existir, não devemos facilitar mesmo nada, ou escolhermos pesqueiros com alguma segurança (acima do nível do mar), nunca devemos menosprezar estes mares pois estamos de frente ás condições de mar que mais acidentes nos podem causar. Quer por tentativa de observarmos uma onda a aproximar-se de nós, não conseguirmos fugir ou escorregarmos, podemos ser levados de uma pedra que até achávamos que nos dava segurança, mas tal não se verificou, ou nunca deveremos virar as costas ao mar, pois nunca sabemos o que se pode estar a aproximar, e qualquer massa de água que nos chegue aos joelhos derruba qualquer homem. Cair na areia da praia quando estamos a tomar banho no verão é uma coisa, mas cair com força de mar numa falésia ou rocha é outra completamente diferente.


CORDAS:

A utilização de uma corda pode parecer uma forma de incentivo ao perigo, mas não o é quando a mesma for utilizada por pescadores mais afoitos e conscientes que a utilizam como meio de apoio de segurança, se bem que por vezes as utilizam para se deslocarem a locais de difícil acessibilidade, escarpas ou falésias altas onde de mais nenhuma forma podem ser alcançadas, a titulo de curiosidade poucos acidentes ocorrem nestes casos, por um lado, já que é uma prática que nem qualquer pessoa a faz, por outro lado, quando ocorrem alguns acidentes são derivados à queda de pedras só pelo simples facto da corda roçar pela falésia provoca a queda de pequenas pedras, que mesmo pequenas podem causar ferimentos graves e bastante sérios se nos acertarem na cabeça (parte que fica à mercê) para salvaguardarmos este ponto poderemos arranjar um capacete de uma motorizada ou adquiri um numa loja de desportos radicais. Uma realidade mais que certa é que mesmo com o auxilio de corda, cabo, capacete, o perigo e o risco continuam lá, mas este equipamento salvaguarda e é uma mais valia em termos de segurança quando devidamente e correctamente utilizado.

Por outro lado a corda pode servir para nos auxiliar a passar o material para locais de difícil passagem de forma a deixar-nos as mãos libertas de objectos para melhor escalarmos ou descermos essas mesmas zonas, essa mesma finalidade poderá ser vista também em situações de zonas de pedras soltas ou descida de arriba, pois já nos salvaguarda e auxilia bastante em termos de segurança extra.

Deveremos sempre ter um especial cuidado na fixação da corda ou cabo, já que deverá ser obrigatoriamente um local que consiga suportar no mínimo o nosso peso, de que vale a corda se em caso de necessário apoio forçado da mesma unicamente ela não aguente no local onde foi fixada?

Um factor de risco é também utilizarmos por exemplo um balde e uma corda ou cabo a uns 7 metros do nível do mar para retirarmos agua do mar para fazer engodo, lavar as mãos ou simplesmente colocar o peixe, já que com a força que a ondulação exerce sobre o balde podemos perder o equilíbrio e cairmos ao mar.


VESTUÁRIO:

Quer de Inverno ou Verão deveremos ter sempre peças de vestuário que nos auxiliem na mobilidade de movimentos. No Inverno deveremos ter sempre em conta o correcto vestuário para uma jornada de pesca.
Utilizo já há alguns anos as calças em neopreme (material de que é concebido os fatos de mergulho e caça submarina) de 5 mm de fatos de mergulho, porque vi nelas uma mais valia em termos de conservação e manutenção da temperatura do corpo em dias mais frios ou chuvosos, permitindo andar molhado sem qualquer problema, em caso de escorregarmos ou batermos com as pernas nas pedras ou marisco numa pequena queda os 5 mm de neopreme funcionam como anti choque ou amortecedor, minimizando bastante qualquer tipo de dano superficial, com excepção de lesões provocadas por bicos de ouriço.
Em caso de queda ao mar acidental estamos salvaguardados pela “quase total” protecção física do corpo pelo fato de neopreme, em termos de protecção ao frio quando falamos em mobilidade não encontramos melhor, á excepção de um banho na praia em pleno verão.
Por outro lado em termos de queda acidental ao mar, por exemplo com uma blusa de malha ou casaco vestido, calças de ganga, essa mesma roupa vai-nos causar uma dificuldade acrescida em termos de segurança, uma vez que essa mesma roupa vai causar um peso adicional que nos vai literalmente puxar para o fundo, se não nos libertarmos dela o mais rapidamente possível, irá nos agravar a flutuabilidade na água, tirar a calma e a liberdade de movimentos, por exemplo para sermos socorridos ou tentarmo-nos salvar.


CALÇADO:

É sem duvida uma das partes mais importantes em termos de segurança e protecção, mas por vezes nem lhe damos o devido valor por ser algo trivial.

Basta-nos reflectir um pouco para nos apercebermos da realidade, no caso de frequentarmos zonas de pedra acidentada, os pés sofrem pela irregularidade do piso, por consequência essa irregularidade irá reflectir-se nas nossas costas e coluna vertebral, originando o mau estar, podemos torcer ou partir um pé se não usarmos botas, escorregar se não escolhermos as características ideais das solas (borracha maleável q.b. com aderência), por exemplo se não nos preocuparmos consideravelmente com o calçado que usamos, isto poderá acontecer.

A utilização das botas de lona com sola de borracha fina e maleável é uma mais valia, já que para alem de nos proporcionar uma boa aderência em pisos irregulares, proporciona-nos uma boa escalada e descida em pedra e rocha, mas mesmo com estas deveremos ter em especial atenção os locais com limo, algas, barro, lama, zonas de talisca (pedra solta).

Quanto á utilização de botas de borracha (galochas) penso que toda a gente tem a noção do que isso implica em caso de queda ao mar, se não, pensem que no caso de queda ao mar com botas de borracha, desde que as mesmas metam um pouco de água (o que não é muito difícil), torna-se impossível retirar/descalçar as mesmas, já que o fenómeno vácuo ocorre, com o enchimento total de água nas mesmas, é como se tivéssemos dois tijolos amarrados aos pés a puxarem-nos para o fundo e contra isto ninguém consegue lutar.

A utilização de vadeadores somente em zonas de areia, e mesmo assim, em dias de mar forte, não nos devemos aproximar muito do mar, por causa dos enchios, podemos ser puxados para o mar ou cairmos, pois o mar em grandes extensões de areia tem muita força, basta uma reversa de uma onda ou o recuo da mesma à altura do joelho para derrubar ou causar o desequilíbrio num homem, isto em dias de mar forte é claro.


VISIBILIDADE:

A nossa visibilidade, seja ela de dia ou de noite, é algo que deveremos ter sempre em conta e prevenir, já que com essa prevenção poderemos evitar acidentes que decorram da falta da visibilidade, quer em nevoeiros ou neblinas matinais, quer em ambientes com pouca luz, isto é, nascimento ou pôr-do-sol.

A utilização de lentes ou o simples factor de aguardarmos mais uns minutos para efectuarmos a descida ou subida para um pesqueiro, poderá livrar-nos de situações de alguma perigosidade, tais como, escorregarmos numa zona de pedra solta, lama, ou limo, segurarmo-nos a pedras que estão pendentes nas falésias, tropeçarmos ou torcermos um pé em zonas acidentadas, em descidas ou planas de rocha, pedras roladas ou rebolos.

Para pescarmos ou frequentarmos zonas rochosas convêm termos um companheiro ou avisarmos alguém do local onde vamos, já que em locais destes somos confrontados com zonas de algum grau de perigosidade quer queiramos ou não, as zonas acima da linha de água ou ao nível desta são perigosas pela presença de limos e algas escorregadias, pelo factor de podermos ser surpreendidos pelo mar e sua ondulação, por frequentarmos pisos irregulares, formatos das pedras por vezes idênticos a objectos cortantes.


TRANSPORTE DE MATERIAL:

Qualquer técnica que pratiquemos no decorrer de uma jornada de pesca, nos é expressamente obrigatório a utilização de material, apetrechos, iscos, acrescentado ao nosso peso uma carga mais ou menos pesada consoante a técnica que vamos utilizar.
Cada vez mais o material é elaborado e estudado para que seja mais leve e resistente, facilitando as descidas e a movimentação nas mesmas.

A escolha de um bom equipamento (vulgo saco ou mochila) é uma vantagem para que tenhamos a consciência de que é imperativo quando de acessos mais difíceis ou descidas em falésias, que tenhamos as mãos livres para nos agarrarmos com segurança como forma de apoio. É claro que neste caso teremos de ter o cuidado de descer zonas de falésia de costas para o mar para que o volume de material que levamos as costas não nos empurre literalmente para baixo, uma vez que esse volume pode bater ou encalhar numa "solapa" de pedra numa descida.

Nas subidas e descidas também teremos de ter em conta a distancia das ponteiras das canas, uma vez que se as levarmos dentro de um saco ou mochila ás costas, as mesmas poderão, conforme a nossa posição, movimentação ou características das falésias nos causar o desequilíbrio apenas com um pequeno toque.

Trazer o material nas mão não é boa opção uma vez que nos ocupa as mão e nos causa desequilíbrio.
Como já referi o auxilio de uma corda é uma mais valia em termos de segurança porque nos liberta as mãos e nos auxilia como apoio nas descidas ou passagens para pesqueiros de difícil acesso.


TROVOADAS:

Em dias de trovoada, aquelas que vêem do mar para terra, são sem duvida as que mais condições em termos de capturas que me proporcionaram até hoje, a reacção que o peixe tem perante estes dias só me leva a crer que pressentem que o tempo vai mudar, encostam a terra para comer e afastam-se (a minha experiência), mas estes dias são muito perigosos para estarmos a utilizar canas de carbono, grafite e derivados, já que as mesmas são condutoras de electricidade por isso devem ser imediatamente recolhidas em caso de trovoadas que não esteja relativamente longe, quando a mesma está perto deveremos depois da recolher deita-las no chão na posição horizontal e afastarmo-nos relativamente delas.

Normalmente são trovoadas passageiras, o que nos permite depois da passagem que continuemos a nossa jornada, mas se as mesmas persistirem o mais indicado é mesmo escolher outro dia.

Pescar, mas em segurança!


9 comentários:

Seamoon disse...

Muito bom !!!
Beijinhos!

Sargus disse...

Ola Seamoon,
Desde já o meu agradecimento pelo comentário, acho que é um ponto a que todos os frequentadores do mar e das falesias devem ter especial atenção, o aspecto segurança, e nunca é demais relembra-lo.

Beijinhos.

Ricardo disse...

Cá está mais um excelente e riquíssimo texto! Obrigado.

Demonstra muita coisa, mas sobretudo inteligência!

Há de facto muita coisa a ter em conta para além de aspectos técnicos para se tirar e continuar a tirar prazer do mar.

Abraço,

Ricardo Silva

Sargus disse...

Viva Ricardo,

Obrigado pelo comentário, mais uma vez, talvez demonstre mais a optica que a experiência me ensinou ao longo destes anos desde que me apaixonei pelo mar e pelas zonas litorais, como tudo na vida ou nos adaptamos aos locais ou não podemos inventar, porque se trata de questões que ao minimo descuido poderemos pagar um preço demasiado caro.

O aspecto sensibilização é sem duvida bastante mais importante que o ensinar ou dar conselhos de técnicas de pesca.

Abraço Ricardo.

Paulo Machado disse...

Muito bons conselhos.
Cada vez existem menos razões para as pessoas não estarem esclarecidas. Só corre riscos excessivos quem quer.

Sargus disse...

Viva Paulo,
É verdade, cada vez existe mais informação, mas também é verdade que cada vez existem mais amantes desta actividade, mais frequentadores de falesias, praias, rios, mar, o que leva a que o aumento de probabilidades de risco cresça talvez de uma forma sem controle.

Só corre riscos excessivos quem quer, partilho dessa opinião.

Abraço.

Pedro batalha disse...

Olá Fernando esse artigo é digno de ser publicado em todos os manuais do pescador.
Obrigado é só o que te posso dizer.

Sargus disse...

Viva Pedro,
Obrigado pelo comentário.

Na realidade parece me que pouca gente tem opinião formada sobre este assunto, ou então já o sabem de cor e salteado, mas a verdade é que no mar não se pode facilitar.

Abraço.

Sonia Seixas disse...

Muito bom, pode ser inserido na apresentação ;)