Pescar com Bóias de Pião

Esta vertente da pesca à bóia é quanto a mim a mais básica em termos de funcionamento da técnica e teoria que fundamentaram outras vertentes da pesca à bóia, pura e simplesmente pelo simples facto de colocarmos algum material com propriedades flutuantes e com diversas formas e efeitos numa linha de nylon, dando a sustentabilidade da baixada que pretendermos para trabalharmos nesse mesmo ponto a própria arte da captura.

Existem bastantes vertentes, experiências pessoais e técnicas que explicam a própria pesca à bóia e nesta modalidade não acredito em verdades absolutas, mas sim na capacidade de que cada para optimizar esta técnica consoante o local, material, condições climatéricas, estado do mar, exemplares a capturar e condições geográficas.

Penso que esta modalidade nasceu nas zonas de falésias Algarvias, muito antes da existência da apelidada costa Vicentina, devido justamente à altura das mesmas falésias de descidas praticamente inexistentes, onde dependendo das zonas, poderão ter mais de 40/60 metros de altura. Ora, a estas alturas, terão de ser utilizadas as bóias de pião e porque?

Em primeiro lugar porque são bóias que pelo seu tamanho permitem um pescar e trabalhar bastante bom, coisa que a estas alturas não será possível com outro tipo de bóias. O seu volume causa um determinado atrito consoante a forma e peso da calibragem, o que permite um trabalhar direccionado e preciso em altura, mesmo em condições adversas de mar e algum vento.

A meu ver estamos a falar da rainha da flutuabilidade / durabilidade / resistência, a sua forma é idêntica a um vulgar peão daí o seu nome, podem ser compostas por todo o tipo de material, podem ser calibradas já incluindo o chumbo incorporado no interior da mesma ou não quando teremos de colocar peso para as calibrarmos (com o problema de no caso de ser necessário colocar algum peso considerável para a calibragem das mesmas, a bóia ao bater na água provoca muito barulho o que poderá afastar o peixe se estivermos a pescar em locais amplos de pouca profundidade, poderemos sempre colmatar este ponto negativo com o lançamento mais longo, mas o principio é quase o mesmo).


A dificuldade do vento em arrastar este tipo de bóias é um ponto que vem a nosso favor, bem como o seu trabalhar em locais de correntes, ondulação forte ou mar agitado (reversas). A boa visibilidade quer ao nível da linha de água, mas a media altura ou grande altura é uma factor de enorme contributo que estas bóias nos fornecem, (pois se estamos a 40 metros de altura a pescar com mares de 3 m de ondulação numa zona cheia de espuma, qualquer outra bóia, com excepção das de madeira (carrapateiras), trará bastantes problemas e incómodos à pesca e que sabe se a jornada não terá condições para prosseguir).

Aspectos positivos:

- Excelentes prestações em lançamento/distancia;

- Excelentes prestações com ondulação acima do 1.5/3.00 metros;

- De grande resistência ao embate na rocha;

- Excelente visibilidade, quer a nível vertical como horizontal;

Aspectos negativos:

- Muito ruidosas quando batem na água.

- Nos dias em que o peixe está a comer mal não são a melhor opção;

A distancia do estralho ou montagem fica ao critério do pescador, mas também da zona ou espécie que se tenta capturar, pessoalmente já usei montagens com bóias de pião com estralhos ou montagens de 1.5 até 7 metros, isto no Sudoeste Alentejano, mas na Costa Vicentina existe a norma de utilizarem montagens com bóias de correr bastante superiores a estes valores.

As calibragens destas montagens ficam também ao critério de cada um, pois podemos utilizar desde as 2 ou 3 gramas e por ai em diante, dependendo obviamente do estado do mar e dos locais onde se pesca, costumo por norma não utilizar muito peso com mares mais mansos ou com montagens mais pequenas justamente para a isca ter um aspecto livre na oxigenação. Quando o mar está mais bastante mais mexido costumo carregar mais no peso para que a isca afunde mais depressa e comece a "pescar" mais depressa também, uma vez que com o mar alterado existem correntes onde o engodo se dirige e as aguagens são mais fortes, por sinal é onde o peixe esta.

O peixe neste tipo de pesca não se ferra sozinho geralmente, isto é existe a necessidade de o ferrarmos em certas ocasiões, principalmente quando o mar esta mais parado, são mais desconfiados, chegando a perceber a tensão do atrito da bóia de pião que no caso de bóias mais finas e leves essa tensão não se sente e o peixe ferra melhor, outras vezes engolem literalmente o anzol e não afundam a bóia, mal se tem a noção que estão ferrados.

São bóias que pelo seu formato e volume trabalham muito bem na escoa, atrevo-me a dizer que são as melhores, escoa essa que é a altura que o peixe sai dos locais onde anda a mariscar atacando tudo o que lhe aparece à frente, uma vez que mariscam e comem as partículas ou pequenos caranguejos e marisco que são libertados pela ondulação.

Em que situações o pião deve ser utilizado - Em qualquer pesqueiro de altura, com mares revoltos, grandes escoas, em pesqueiros onde haja pedras ilhadas fora de alcance, quando se pretende pescar longe, directamente de uma praia, sobre as rochas, em fundos de pedra, em fundos de areia, em fundos mistos....

Em termos de iscos, podia numera-los, uma vez que praticamente todos os iscos poderão ser utilizados, mas existem os mais utilizados, como o camarão, o ralo, a sardinha, o caranguejo, o mexilhão, etc.

Normalmente tenho preferência pelos peões calibrados, uma vez que são mais facilmente montados, não requerem travão e tem uma caída na água bastante mais suave.

As canas mais resistentes e ideais são as de acção de ponteira, ideais para pescar em lajões de média ou altura considerável que nos obriguem a elevar o peixe de forma a que o mesmo não bata na rocha, deverá ter entre os 5 e os 6 metros.
Canas concebidas em Carbono Radial de Alto Módulo para permitir uma manobra considerável entre a pesca com bóias pesadas e pequenas chumbadas, ideal portanto para a pesca à Bóia de peão.
Os carretos têm um papel principal de relevo neste tipo de pesca, uma vez que são os “guinchos” de levantamento ou não de bons exemplares.

A pesca com peão é um mundo de experiências que todos os que aderirem a ele terão de se moldar efectivamente às experiências de forma a evoluírem, pois não existe uma lei base. Os pesqueiros não são todos iguais, os fundos e a geo-morfologia idem.

Nesta técnica de pesca de bóia existe uma variável e enorme quantidade de oferta de mercado pelo que podemos utilizar peões calibrados; não calibrados; peões de cortiça; peões de madeira; peões de esferovite; peões de espuma de propitileno; peões de plástico, peões de correr; peões fixos, montagens curtas; montagens médias; montagens compridas; montagens calibradas fixas; montagens calibradas de correr, formatos de bóias redondas; ovais; compridas; finas, isto só para se ter uma ideia da hipótese de conjugação desta enorme quantidade de variantes que por sua vez conjugada com os diferentes estados do mar, ondulação, vento e espécies temos ao nossa dispor.

Nota: Para uma boa optimização deverão ser utilizados nylons de qualidade nas montagens inferiores, com resistência/elasticidade e fiabilidade.

Talvez a técnica mais utilizada, que se mantêm fiel e equilibrada entre as capturas de diferentes espécies.
Pelo simples acto de afundar a bóia o peixe transmite ao pescador um aviso visual que com a pratica e desenvolvimento da técnica um dia tornar-se há instintivo e mecanizado, do tipo sente e vê agindo de imediato, somente pelo simples facto de manter uma sem tensão entre a bóia e a ponteira da cana onde o elo de ligação é justamente o nylon.

Esta técnica de pesca reúne um considerável numero de praticantes de igual forma como a pesca ao fundo, consistindo basicamente na utilização de um instrumento com um grau de flutuabilidade que pode ser calibrado, quando a bóia já trás o peso ideal que a torna equilibrada à superfície da linha de água na posição vertical ou não, no ultimo caso se não o for, poderá ser adquirido um acessório que o calibre de forma a que a mesma não fique à superfície da linha de água na posição horizontal, vulgarmente conhecido como chumbo fendido ou chumbo de aperto.

Esse utensílio que chamamos bóia tem uma dupla finalidade, a visibilidade ao toque/ferragem/mordida do peixe assim que deixamos de observar a bóia á superfície da linha de água, ou então, pelo simples facto de conseguirmos desta forma manter a isca a uma profundidade fixa ou variável ou não conforme pretendermos.

Uma cana com boas características será necessária para nos auxiliar na prática desta técnica, como por exemplo não nos podemos esquecer aquando da aquisição de algumas características das canas tais como;

Leveza – Consideravelmente leve que não interfira no conforto de pesca, porque estamos por vezes a praticar esta técnica em locais com superfícies acidentadas que interferem com a correcta postura da coluna e quanto mais pesada for a cana mais depressa este incomodo sugue ou dores nas costas, braços e ombros, por outro dado essa mesma leveza pressupõe uma maior facilidade no transporte.

Resistência – Permite a recuperação de exemplares de bom porte, por um lado auxiliam ao combate dos mesmos e por outro é bastante positivo termos uma cana de resistência considerável quando estamos a içar exemplares a alturas consideráveis o que se reflecte em termos menos importantes quando estamos a trabalhar ao nível do mar, embora a resistência seja um factor importante inclusivamente nestas alturas.

- Boa ferragem – Não só a boa ferragem é essencial, mas também o trabalhar do peixe, deverá estar equilibrada com o carreto adequado deverá ser equilibrada em termos de flexibilidade ou rigidez, embora seja do critério de cada um e gosto esta escolha.

Teremos basicamente três tipos de características de canas como acção, de forma gradual poderemos avalia-las em acção rija, em que o vergar da cana não é significativo sendo uma mais valia em termos de ferragens, pesca em locais altos, dias de vento, sendo uma característica que chamo de 4 x 4 porque com uma cana deste tipo de acção podermos utiliza-la ao fundo, chumbadinha/engano (light), bóia, tento, etc.


8 comentários:

Ricardo disse...

Viva Fernando!

Mais um fantástico artigo sobre, na minha modesta opinião, uma das mais interessantes modalidades de pesca.

Quem não está habituado a pescar com pião sente inicialmente muitas dificuldades, como foi e é ainda o meu caso!

Sem sombra de dúvida que foi uma honra e um prazer ter podido observar e acompanhar in-loco as tuas pescas e dos restantes companheiros nessa modalidade, naquela maravilhosa expedição que me fizeste recordar através de algumas das fotos deste artigo.

Infelizmente, a minha zona habitual de pesca não é muito propícia a esta modalidade, com pena minha, pois gostava de a explorar mais e melhor para estar mais preparado na próxima expedição ;-)

Grande Abraço!

Anónimo disse...

Mais uma vez excelente artigo. Pessoalmente gosto mais de pescar ao peao com a montagem á montes clérigos (unico nome que ouvi concreto para aquele tipo de montagem), que consiste no travamento do peão com um nó ficando a boia a correr até a um chumbo redondo furado de 30 40 ou ate 80/100 gr para equilibrar a o peao, saindo depois abaixo deste(chumbo) um estralho que pode ir até ao tamanho da cana, estralho o qual leva uma oliva de correr de 2 ou 3 gr, ou bem mais consoante o estado do mar.

miguel Coucello

Sargus disse...

Boas Ricardo,

Obrigado pelo comentário, a pesca com pião é bastante facil quando entramos nela, o mais dificil na minha húmilde opinião e ajustar essa tecnica aos pesqueiros e procurar com ela os locais onde anda o peixe.

Sinceramente a honra foi conjunta o grupo foi fantástico e todos nós gostamos quer pelo grupo, condições que encontramos, recepção, etc, foi de facto uma experiência inesquecível.

Grande Abraço!

Sargus disse...

Boas Miguel,

Desde já obrigado pelo comentário.

Essa montagem que falas é a utilizada na Costa Vicentina onde os fundos dos pesqueiros são bastante superiores ao que estamos habituados, daí essa montagem superior ao tamanho da cana, mas quando tal não justifique não é necessário essa técnica.

Grande abraço.

José Germano disse...

Sem dúvida, um óptimo artigo.

Iniciei-me na pesca com o peão há pouco tempo, o que me parecia desinteressante e pouco sensível ao observar outros pescadores, é agora uma das modalidades que mais aprecio.

Tenho ainda muito a aprender, isto, sem dúvida, ajudou.

abs

Anónimo disse...

Boas Fernando,

Desde já os meus parabéns porque de facto estamos perante a elaboração um grande artigo.
Pessoalmente também sou um grande amante da pesca à bóia nomeadamente com pião e gostei bastante dos conteudos deste belo texto que nos apresentas.

Abraço
Sérgio Tente

Sargus disse...

Viva José,
Obrigado pelo comentário.

De facto muita coisa haveria por dizer sobre esta modalidade, mas de facto so traria algumas complicações, pois cada um terá as suas técnicas mais ou menos elaboradas, que na minha húmilde opinião só fazem parte da evolução e experiências de cada um, e bem diga se de passagem.

Esta pesca não é desinteressante, muito pelo contrário, mas há que ter a sensibilidade de a enquadrar com as condições ideais.

Todos temos muito que apreender, húmildade é sem duvida algo que não nos faz mal, nem agora nem nunca.

Abraço caro amigo.

Sargus disse...

Viva Sérgio,

O meu agradecimento pelo comentário.

Apenas tentei dar o meu contributo dentro da minha prespectiva desta modalidade e variante, algumas coisas terão faltado, ficará para o futuro e quando tiver alguma disponibilidade, falar das montagens e sua utilização.

Abraço Sérgio.