Que ondas são estas?


As ondas que têm assolado a costa portuguesa não são propriamente altas, são sobretudo compridas. Resultam de uma conjugação entre disparidades térmicas, ventos fortes e empilhamento de água junto à terra. Luís Quaresma Santos, oceanógrafo do Instituto Hidrográfico e tenente da Marinha, explica o fenómeno por detrás das imagens impressionantes que todos vimos nas últimas semanas.

Este início de ano está a ser marcado pela ondulação gigante na costa portuguesa. O mar está mais perigoso?

A onda gigante da Nazaré, que foi surfada pelo Gareth McNamara, é muito maior em altura do que estas ondas. O que torna estas ondas perigosas é o seu comprimento. As ondas podem durar seis segundos e o que foi extraordinário neste evento foi a chegada de ondas que duravam 22 ou 23 segundos, um comprimento de onda enorme.

O que é que criou uma agitação marítima tão excecional?

Tivemos durante vários dias ventos muito fortes a atuar em toda a superfície do oceano. Os ventos começaram na costa Leste dos Estados Unidos e o efeito de rotação da terra fez com que essa tempestade se tenha movimentado por toda a bacia oceânica em direção à Europa. Como a tempestade começa a gerar ondas e as ondas começam a ser empurradas para um sítio longe de onde elas tinham sido formadas, a tempestade propagou-se em cima da agitação que já existia, fazendo-a aumentar.

Estamos a falar de horas?

Não, estamos a falar de dias. O que acontece é que, com a frente polar que chegou à América do Norte, criou-se uma depressão atmosférica e um contraste de pressões que provocou ventos muito fortes e constantes. Esses ventos foram fustigando a superfície da água, ampliando a ondulação. A tempestade foi alastrando para oriente e, a determinada altura, já ocupava todo o Atlântico Norte.

Resumindo: a vaga de frio criou vento nos oceanos e a rotação da terra empurrou esses ventos para a Europa.

Exatamente. Este ar frio era molecularmente menos denso e criou uma problema de pressão térmica sobre a superfície do mar. Todo o planeta recebe energia solar e o mar tem uma capacidade maior de armazenar o calor do que o ar. É por isso que os oceanos não congelam. Se o ar está mais frio do que a água, o calor vai passar do oceano para a atmosfera. Quando isso acontece, as partículas vão pouco a pouco tornado-se menos densas e o ar sobe, criando os tais ventos. Neste caso, o contraste entre a temperatura do ar e da água foi tão extremo que criou uma grande tempestade oceânica. E consequentemente uma agitação marítima excecional.

Mas nos últimos anos houve Invernos também rigorosos e não se notou tanto este fenómeno de ondulação.

O problema desta vez é que o frio chegou ao Golfo do México, que é um dos grandes reservatórios de calor do Atlântico Norte. Por causa da depressão criada pela temperatura, a água teve de escapar do golfo para Norte. O movimento de rotação da terra, como já vimos, foi fazendo o excesso de água que o oceano recebeu avançar na nossa direção, sempre fustigada pelo vento. Quando encontrou um obstáculo, a água começou a empilhar-se na costa até entrar terra adentro. Os ventos, então, fizeram essa água chegar-nos sob a forma de ondas de grande dimensão.

É provável que estes episódios de ondulação perigosa se repitam nos próprios anos?

As alterações climáticas fazem com que ocorram fenómenos cada vez mais extremos e cada vez mais repetitivos. O clima está a evoluir, ou seja o equilíbrio das massas dinâmicas da atmosfera e do oceano estão em transformação. Se puxarmos a corda de um lado, a Natureza encarrega-se de encontrar o equilíbrio do outro.

E estamos preparados para fenómenos destes?

Temos uma rede de monitorização oceânica que está em permanência a observar o vento, a pressão e a agitação marítima. E o Instituto Hidrográfico está em permanente contacto com o Instituto do Mar e da Atmosfera. Quando há situações de emergência, a Proteção Civil declara o nível de perigosidade para pessoas e bens.

Uma agitação marítima destas dimensões há de ter um impacto fortíssimo em termos de erosão. Vamos ficar sem praias, com o passar do tempo?

No Inverno o mar rouba sempre imensa areia às praias, que é reposta no Verão por causa dos rios. Os cursos de água doce transportam sedimentos que vão repor o equilíbrio. O problema é que as barragens interromperam esta ordem natural. E também o transbordo de águas. Espanha está a desviar águas reduzindo os caudais dos rios, e impedindo a reposição da areia. O problema da erosão não vem tanto destes fenómenos naturais, vem muito mais da ação humana.

Estas ondas perigosas têm alguma coisa a ver com um tsunami?

O tsunami tem uma origem diferente, que é a destabilização da crosta. Mas, da mesma forma, cria uma depressão que provoca uma onda de grandes dimensões. Agora, se neste caso estamos a falar de ondas que duram, no máximo, 25 segundos, quando falamos de um tsunami falamos de um transbordo de água em terra que dura dois minutos e meio. O impacto é completamente diferente.

A onda é então uma libertação de energia do mar, por causa das variações de pressão?

Sempre. Mas não se pense que as ondas se revelam apenas à superfície, elas também se propagam no interior do oceano, com a particularidade de serem ondas muito maiores, porque a densidade do mar é muito maior do que à superfície. Dentro do mar há ondas que alcançam oitenta metros de altura, por exemplo. E podem rebentam no interior do próprio oceano, sem nunca atingir a costa. Não as vemos, mas elas estão lá.

Mas se temos atividade sísmica no Atlântico, nomeadamente nos Açores, porque é que a nossa costa, que é aberta ao oceano, não é fustigada por um grau maior de agitação marítima?

Precisamente por causa dos Açores, ou antes, do anticiclone dos Açores, que é um centro de altas pressões que desvia a corrente marítima para Norte. É isso que explica o nosso clima, a nossa exposição excecional ao sol e uma baixa agitação marítima, sobretudo no verão. No Inverno, o anticiclone enfraquece e, no caso do que vivemos nestes últimos dias em Portugal, desaparece por completo. Países como a Irlanda estão habituados a este grau de agitação marítima porque não beneficiam do centro de altas pressões dos Açores.

Então porque é que uma tempestade destas dimensões não se sentiu da mesma forma em terra como no mar? Se o Hércules, que nos Estados Unidos manifestou-se através de um frio glaciar, atravessou todo o Atlântico, não deveríamos ter sofrido uma vaga de frio semelhante?

A tempestade Hércules atravessou o Atlântico e o oceano foi aquecendo o ar ao longo do processo. No dia 6 de janeiro, o nível do mar já tinha subido meio metro, porque a tempestade e a diferença de pressão provocaram um empilhamento de água na nossa costa. Se subiu meio metro, uma onda que antes rebentava na praia, vai agora rebentar na dura. Quando a maré subiu, entre o meio dia e as seis da tarde, formaram-se ondas grandes e compridas e transbordaram de forma significativa para dentro de terra.

Pode ter sido uma onda destas que apanhou desprevenido, em dezembro, um grupo de universitários no Meco?

Não quero especular sobre o caso, até porque ele está a ser investigado. Mas sabemos que as ondas não têm sincronia, vêm umas maiores e outras mais curtas. Em média, a cada sete ondas há uma vaga que transporta maior volume de água. E não só o transbordo é maior como o refluxo também é mais acentuado. Se as pessoas estiverem próximas da água podem ser levadas pelo mar. Em Portugal, e nomeadamente no Meco, são frequentes as correntes de retorno, conhecidas popularmente por agueiros. A água que dá à costa entra num corredor de refluxo para mar alto. Ser apanhado numa situação destas desprevenido, ainda mais usando roupa de Inverno, pode ser fatal.

LUÍS QUARESMA DOS SANTOS: Tem 36 anos e é um dos principais oceanógrafos do país. Doutorado em Oceanografia Física pela universidade de Brest, em França, é primeiro tenente da Marinha Portuguesa e investigador no Instituto Hidrográfico, principal centro de investigação da Armada. O seu trabalho incide sobre o estudo, a observação e previsão de marés, correntes oceânicas e agitação marítima.


1 comentário:

C.Morais disse...

Muito bom post e esclarecedor :)

Nota Máxima, parabéns e obrigado pela partilha!!

Abraço