"Dá a um homem um peixe, come por um dia; ensina um homem a pescar, come por toda a vida" (parte 2)


O que vai muito além de ensinar pesca, uma filosofia de aprendizagem baseada na experiência, na observação e na autonomia. 

Há um paralelismo muito forte entre aprender a pescar e desenvolver autoconfiança, a pesca nunca foi apenas o objetivo, sempre a vi como um ambiente onde o meu filho pudesse aprender a observar, interpretar e decidir por si próprio.

Não lhe dizia simplesmente "os peixes fazem isto", preferia que ele visse acontecer, que estabelecesse a relação entre causa e efeito, e sentisse a adrenalina que o separa através de um monofilamento ou multifilamento. Ao caminharmos na zona intertidal, em vez de lhe indicar onde colocar os pés, perguntava-lhe onde achava que existia melhor aderência, onde a água escondia uma pedra escorregadia ou onde uma pequena corrente podia desequilibrá-lo, depois comparávamos a sua leitura com a realidade.

Com o tempo, a minha prioridade passou da pesca para a segurança, deixá-lo mais autónomo, mas ainda assim desperto para os riscos. Ensinar a ler uma falésia, avaliar uma descida, não se apoiar em pedras que se poderão soltar, manter a inclinação do corpo para o lado de terra, quer nas subidas como nas descidas, observar o estado do mar, a ondulação, até onde a mesma poderá chegar, ou reconhecer quando não vale a pena continuar, tornou-se mais importante do que apanhar peixe. 

São competências que não se aprendem num dia, tal como ninguém aprende a empatar um anzol na primeira tentativa, exigem repetição, erros controlados e reflexão.


Antes de começarmos a "pescar" qualquer problema, a primeira pergunta deve ser: qual é realmente o desafio que temos em mãos? A partir daí surge um método que pode ser aplicado a praticamente qualquer área da vida:

1. Definir claramente o desafio
2. Observar atentamente o contexto
3. Procurar padrões e relações
4. Formular uma hipótese
5. Experimentar
6. Avaliar o resultado
7. Ajustar e voltar a experimentar

É exatamente o que faz um pescador experiente, (inconscientemente muito devido ao efeito da prática e tentativas que efetuou ao longo dos tempos), se o peixe não aparece, não se muda apenas o isco por rotina, questiona-se primeiro:

Será a altura da maré? 
Será a cor da água? 
A corrente mudou? 
Há alimento natural disponível? 
Estou a apresentar o isco da forma correta?
 
Cada resposta gera uma nova tentativa, e cada tentativa aumenta o conhecimento, é aqui que entra a autoconfiança, muitas vezes pensamos que ela nasce dos sucessos, sim dos sucessos e das tentativas, mesmo que sejam em erro. 

Na realidade, a autoconfiança duradoura nasce da experiência de resolver desafios e problemas, ele tem de percebe que, mesmo quando falha, possui um processo para encontrar uma solução, e são essas as ferramentas que lhe devem ser colocadas à disposição.


No fundo, o que se estou a tentar transmitir é uma competência muito mais valiosa do que saber pescar, não lhe estou a ensinar apenas onde lançar a montagem com o isco. Estou a ensinar-lhe como pensar quando não sabe onde lançar a montagem e o isco.

Esse princípio acompanha-o na pesca, nos estudos, no trabalho e na vida. A pesca é apenas o laboratório onde aprende a observar, interpretar, decidir e assumir a responsabilidade pelas suas escolhas. 

Talvez essa seja a maior herança que um pai pescador pode deixar ao filho: não um conjunto de respostas, mas uma forma de olhar para o mundo em que a curiosidade vem antes da certeza, a observação antes da ação e a experiência antes da confiança. 

A confiança de deixar de depender de alguém lhe dizer o que está certo e passa a nascer da convicção de que, mesmo perante um desafio novo, tem as ferramentas para o compreender e encontrar o seu próprio caminho.



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